quarta-feira, 17 de abril de 2013

Vacina contra a gripe

Estamos em campanha nacional de vacinação, e muita gente me pergunta sobre a vacina no momento (fico feliz)...então achei que valia uma postagem no blog com algumas informações:



1) NÃO TEMOS EVIDÊNCIAS DE QUE A VACINA FUNCIONE EM MENORES DE 2 ANOS:

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD004879.pub4/abstract



2) NÃO TEMOS EVIDÊNCIAS DE QUE A VACINA REDUZA COMPLICAÇÕES, INTERNAÇÕES OU MESMO A TRANSMISSÃO DA GRIPE EM ADULTOS SAUDÁVEIS:

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD001269.pub4/abstract



3) NÃO TEMOS EVIDÊNCIAS DE QUALIDADE SOBRE A SEGURANÇA, EFICÁCIA E EFETIVIDADE DA VACINA EM PESSOAS COM 65 ANOS OU MAIS:

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD004876.pub3/abstract



4) NÃO TEMOS EVIDÊNCIAS DE QUE VACINAR PROFISSIONAIS DE SAÚDE CONTRA A GRIPE PROTEGE OS PACIENTES DA DOENÇA:

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD005187.pub3/abstract



Um bom resumo das evidências, compilado pela Cochrane Collaboration, está aqui:

http://www.thecochranelibrary.com/details/collection/978807/Influenza-evidence-from-Cochrane-Reviews.html



Outro bom conjunto de informações está aqui, compiladas por Juan Gérvas:

http://equipocesca.org/new/wp-content/uploads/2012/09/flu-vaccine-reasons-no-Sept-2012.pdf

ou aqui:

http://www.actasanitaria.com/opinion/el-mirador/articulo-provisional.html

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Pronto, minha parte eu fiz. Eu não tomo a vacina e sou profissional de saúde, minha mulher está grávida e não vai tomar, e minhas filhas estão fora da faixa etária então estão "livres". E não recomendo aos meus pacientes.

Tu aí, tu toma se quiser. Se eu puder ajudar em mais alguma coisa...=)

quarta-feira, 20 de março de 2013

Varizes

Reprodução resumida de diálogo durante consulta, num desses dias:

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- Bom dia, tudo bem?
- Tudo mais ou menos, doutor...
- O que houve?
- Tô com varizes na perna, está muito grande, tá horrível...queria que o senhor me encaminhasse a um médico de varizes.
- Ok, vamos dar uma olhada...
(...)
- E aí? Tá muito feio?
- Olha só, de fato tem algumas varizes...
- (interrompendo) Algumas? Tem um monte! E essa da panturrilha, tá horrível!
- Vê só, vamos conversar. A gente pode fazer algumas coisas: elevar a perna de vez em quando, usar umas meias compressivas se for ficar trabalhando muito tempo em pé, tomar um analgésico quando doer...mas você me pediu pra te encaminhar a um médico que possa cuidar disso. Então deixa eu te dizer uma coisa: essas varizes pequenininhas, por mais que tenha muitas delas, costumam responder muito pouco ao tratamento. Nesse caso não é cirurgia, é um tratamento que envolve algumas injeções nas pernas pra tentar eliminar as varizes. O problema é que elas costumam voltar e o tratamento não é fácil conseguir no SUS, então tu tem que pensar se quer isso mesmo. Diante disso, posso perguntar uma coisa?
- Pode sim.
- Tu tem 31 anos, certo?
- Certo.
- E imagino que as mulheres da tua família tenham varizes iguais às suas, certo?
- É...certo.
- Então deixa eu te dizer uma coisa. Estas varizes não são nada que você precise se incomodar tanto. Eu sei que esteticamente a gente se preocupa, mas pelo que você está me dizendo e pelo que eu vejo aqui este é o seu corpo, é a tua história, e é difícil lutar contra isso. Mas aí cabe uma outra questão.
- (silêncio)
- Você não devia se deixar influenciar por um padrão de beleza que está na televisão, nas revistas. Primeiro porque ele não é real: tu acha mesmo que a maioria das pessoas se parece com aquelas panicats? E segundo porque ele é mentiroso: pode aproximar a câmera ou tirar o photoshop que aquele corpo perfeitinho desaparece. Pessoas normais têm pneuzinho, celulite, estrias, varizes, sardas, culote, orelha de abano, pé torto.
- (Começa a chorar) É que me incomoda tanto! Eu fico com vergonha do meu marido! Ele é lindo, sabe? E tá na faculdade...aí eu fui lá um dia e vi um monte de menininhas, e só fico pensando que ele vai acabar me trocando por uma menininha daquelas. Eu nem saio mais com ele, não coloco mais um short em casa, ele vive me chamando pra ir pra praia que ele adora mas eu não quero ir.
- E como tá a relação de vocês? Ele te cobra em relação a isso?
- Não, de jeito nenhum! Olha...ele gosta muito de mim, eu tenho certeza! Ele faz tudo por mim, aquele homem! Ele vive dizendo pra eu não me preocupar, que isso é besteira!
- Então! Vai por mim, ouve teu marido! Ele sabe muito bem a diferença entre você e as menininhas da faculdade. Ele sabe muito bem porque está com você e não com elas.
- É...eu sei. Eu confio nele. A gente é muito feliz.
- Vocês têm filhos?
- Temos! Eu tenho dois do meu primeiro casamento e ele tem um do primeiro casamento dele.
- E como é a relação entre todos vocês?
- É ótima! A gente é feliz, de verdade.
- Pois é! Vai por mim, conversa com teu marido. Eu tenho certeza que ele prefere você com suas varizes tomando uma cervejinha com ele na praia do que em enfiada em casa! E sinceramente, olha ao teu redor. A maioria das mulheres tem varizes! Tu tá com vergonha de que? Aproveita a vida!
- (Sorri) Verdade. Acho que o senhor tá certo.
- Mas enfim, é só uma opinião. A gente vai fazer o que você achar melhor. Quer que eu tente fazer o encaminhamento? Fique à vontade!
- (Pausa. Sorri de novo) Não, não. Olhe, acho que hoje eu vou dormir como não durmo faz tempo. Eu tava muito preocupada, triste, mas gostei do que o senhor falou. Acho que é por aí. Vou pensar mais sobre isso.
- Então, faz aquelas coisinhas que eu falei e vamos vendo. Qualquer coisa tu volta aqui e me procura, ok?
- Ok. Muito obrigado, de verdade. Foi muito bom conversar. Sabe que eu tenho uns parentes, uns amigos médicos e não tinha coragem de conversar sobre isso? Morria de vergonha.
- Pois eu que agradeço pela confiança...você não teve coragem de conversar com os parentes mas se abriu comigo. Obrigado, viu? Espero ter retribuído.
- Ô! Vou chegar em casa e contar pro meu marido tudo o que o senhor falou! Ele vai ficar é feliz, porque ele ficava me dizendo mais ou menos a mesma coisa...

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E assim se ganha mais um dia de sorrisos no rosto que quem tá do lado não entende o porquê...eita profissãozinha apaixonante!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A pobreza médica

Eu não tenho a menor paciência pra campanhas de médicos reclamando que ganham pouco.

"O SUS paga uma miséria"
"O valor da consulta no plano é baixo"
"Tenho que ter 5 empregos pra ter um padrão de vida digno"

E coisas do tipo.

O SUS, por falta de fiscalização adequada, permite que muitos "bastiões da dignidade médica" trabalhem 15h horas num emprego que deveriam trabalhar 40 horas semanais. É por isso que, mesmo reclamando, boa parte dos médicos não "larga o osso" do SUS. (eu disse boa parte, tem muita gente boa e honesta por aí, ok?)

Se o plano paga pouco pela consulta, ué, deixa o plano! Regulação de mercado, já ouviu falar?

E sobre múltiplos empregos, escrevo um pouco mais.

Eu tenho dois empregos. Um é em "horário comercial", 40 horas por semana, e outro é um plantão noturno uma vez na semana. Consigo levar minhas filhas na escola pela manhã, chego em casa antes de escurecer, e como dou plantão na sexta consigo descansar dele no sábado de manhã sem problemas (e ainda ganho mais pelo plantão do que se trabalhasse nas quintas, por exemplo, por conta do adicional de fim-de-semana).

Com essa carga horária, que não é muito diferente de outras categorias profissionais, eu consigo ter um padrão de vida confortável, que me permite fechar as contas do mês sem problemas, e ainda dá uma sobra boa pra gastar em coisas que eu não necessariamente preciso, mas gosto. (claro que tem o salário da patroa nessa conta, que eu não casei com madame!)

Agora, se neguinho que ralar o peito trabalhando 80 horas por semana correndo de um lado pro outro porque quer manter a casa da praia e a casa de campo, um utilitário grande e beberrão na garagem, fazer o enxoval em Miami e ir pra Europa passar 3 semanas todo ano, eu respeito. E digo mais: vá em frente.

Mas deixa de hipocrisia, deixa de reclamar.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

"Velho rabugento"

Homem, 81 anos. Casado há 63. Perdeu a esposa há 6 meses.

Antes dele, entra a filha. Que conta que ele está rabugento, difícil de conviver. Que a neta quer mandá-lo pra um asilo, mas que ela não aceitou porque prometeu à mãe que cuidaria do pai.

A filha tem hipertensão, e está descontrolada nos últimos meses por causa do aperreio dentro de casa. Não dorme bem. Quer que eu convença o pai a voltar à psicóloga, que começou a atendê-lo logo após a morte da esposa mas que de repente ele não quis mais ir.

Ok, manda o homem entrar.

- Eu vou sair, doutor, daí vocês ficam mais à vontade, ok?
- Ok. Bom dia, seu fulano, como o senhor está?
- Meio aperreado. Minha mulher morreu, sabe?
- Sei sim, sua filha me contou. Difícil, né?
- É sim. A saudade é muita, doutor.

E aí segue uma bela conversa, ele falando de como ela segurou a barra quando ele trabalhava como motorista de ônibus intermunicipal e viajava bastante. De como ela assumiu a criação dos filhos enquanto ele não conseguia ficar muito em casa. De como ela foi companheira quando ele envelheceu, e adoeceu. Da força dela quando ele adoeceu e teve que colocar um marcapasso. De como mesmo doente, no final da vida, ela era companheira dele.

- Ela deve ser muito especial mesmo, seu fulano.
- Se era, doutor. O senhor quer ver uma foto?
- Claro! Cadê?

Na foto, o rosto sério. Pra descontrair, pergunto se ela era braba ou tranquila. Ele disse que era tranquila, desde que não provocassem. A foto não era muito recente, a filha (que voltou ao consultório) explica. Mas segunda a filha, era muito séria. Rigorosa. Teve que ser, conclui, pois segurou a casa e os filhos com o marido viajando pelo mundo.

Ele não chora. Não chorou no enterro, nem no velório, nem depois. Disse que ficou chateado porque na missa de sétimo dia um conhecido comentou "ele não gostava dela, se gostasse estaria chorando". Isso o magoou. Comento que quem precisava saber se ele gostava ou não com certeza sabia. Ele balança a cabeça, concordando, e sorri. Mas não chora.

A filha comenta sobre a psicóloga. Ele olha de lado, e antes que ele fale algo eu entro:

- O psicólogo não é pra quem está doente. O psicólogo é pra quem está numa fase difícil da vida e pode ser ajudado se tiver um espaço pra conversar um pouco. Pra colocar pra fora o que não consegue falar para os filhos, para os amigos, vizinhos. O senhor notou que a psicóloga nem remédio passa? É por isso, porque o senhor não está doente. Só precisa de uma ajudinha nesse período.

Ele sorri. E concorda:

- É mesmo, doutor. Eu gostava de ir lá. A doutora tinha uma conversa bem boa.
- E por que o senhor não quis mais ir lá?
- Porque um dia ela faltou, e me mandaram pra consulta com outra pessoa. Eu já tava acostumado com a primeira. Aí quando foi na outra semana era a doutora de novo, e eu disse a ela que não tinha gostado dela não estar lá, e que eu não iria mais.

(olha a importância do vínculo do profissional com o paciente...)

- Mas seu fulano, pode ser que a intenção dela tenha sido a melhor possível. Ela teve que faltar por algum motivo, e pro senhor não perder a viagem colocaram o senhor pra consulta com outra psicóloga. Não tem problema se o senhor não gostou: diga isso a ela, diga que se ela faltar o senhor prefere perder a consulta e voltar na semana seguinte a ir pra outra pessoa. Pode ser?

Ele sorri.

- Pode, doutor. Pode sim. Eu gostava da doutora...aliás, o senhor é feito ela, tem uma conversa boa, ouve a gente. Eu nem sabia que tava chateado por causa disso, e o senhor descobriu. Eu vou voltar lá essa semana.
- Pois vá sim, diga pra ela tudo o que sente, e depois volta aqui pra me contar como foi.
- Volto sim. Pode deixar. Obrigado!

(o que eu estava fazendo longe desse trabalho, hein?)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Consulta médica: um diálogo de surdos?

Já ouvi muitos relatos de pessoas que passaram por alguma consulta médica e não se sentiram bem acolhidas. Por mais que o médico fosse uma pessoa bem recomendada, e que demonstrasse competência, as pessoas saíam das consultas com a sensação de que não foram ouvidas.

E se alguém te dissesse que há estudos que mostram que 54% das queixas dos pacientes não são abordadas pelos médicos? Ou que médicos costumam interromper seus pacientes cerca de 20 segundos depois que estes começam a contar seus problemas? Ou ainda, que em dois minutos a maioria das pessoas consegue fazer um relato completo sobre seus problemas, que permite um bom diagnóstico rapidamente?

Se você é médico, pare pra pensar um pouco: se você precisasse escolher, o que faria mais diferença? Ler aquele último artigo sobre a rosiglitazona ou estudar um pouco de estratégias de comunicação com seus pacientes? Se você não souber como obter a melhor informação e passar recomendações de forma mais convincente, de que adianta estar antenado com aquela droga nova para TDAH?

Se ainda não se convenceu, assista ao vídeo abaixo, da médica de família e comunidade Marcela Dohms, que atualmente trabalha em Curitiba. Pouco mais de meia hora que pode mudar radicalmente a forma com que você enxerga a consulta médica.

E se você não é da área mas tem interesse no assunto, pode assistir também. Pode te ensinar a se comunicar com seu médico, o que tem influência direta na sua saúde.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A volta do que não tinha ido.

É isso. Este blog será retomado. Não que tivesse muito pra retomar, porque ele só tinha durado uma postagem e eu morguei. Depois eu conto essa história. Mas eu mantive a primeira postagem porque explica a origem do nome (que eu ainda acho legal após alguns anos).

O fato é: em vez de ficar escrevendo textos longos no Facebook (e ocupando a timeline dos outros) eu vou tentar colocar minhas inúmeras postagens por aqui.

Vamos ver se funciona. Abraços a todos.

sábado, 21 de novembro de 2009

Uma notinha inicial

Toda essa revolução no modo de se comunicar traz algumas novidades. Pra mim, a principal dela é a seguinte: tem um monte de gente que acha que tem algo a dizer e que nunca encontrou um espaço onde isso pudesse ter alguma repercussão.

Daí as participações e debates frenéticos inicialmente em listas de e-mail, depois em redes sociais. Faltava objetividade e velocidade, daí chega o Twitter. E deve ter mais coisas acontecendo por aí que eu nem conheço.

Eu sempre achei que ter e manter um blog era, antes de qualquer coisa, um ato de narcisismo. Pura pretensão.

E devagarinho fui chegando à concluindo que se a gente procura ler, se informar e elaborar posições críticas sobre tudo (em vez daquela velha opinião formada...), e gosta de colocar esse produto em discussão entre amigos, colegas e anônimos na internet, nada mais natural que procurar espaços pra colocar essas opiniões para mais pessoas. Ou seja, pura pretensão mesmo, mas fazer o que?

Quem acha que tem algo a dizer não consegue ficar quieto. Essa tem sido a minha vida desde que descobri que existem tensões no mundo que precisam de mais debate.

Então demorou mas a ficha caiu. Depois dos blogs se tornarem meio obsoletos é que eu resolvi aderir. Eis o blog "Calor danado".

E por que esse nome? Na verdade sai do momento em que esse primeiro post é escrito: madrugada no Rio de Janeiro, num calor infernal. Minha terrinha natal querida, Recife, deve estar mais fresquinha a essa hora. Mas a expressão "calor danado" acaba aqui com outro sentido, o de calor como polêmica.

Esse blog é a mais nova pretensão desse blogueiro: abordar assuntos "quentes", opinando e esperando opiniões dos outros. Inicialmente não haverá restrições nos comentários, e eu prometo publicar o que sair desde que vocês sejam educadinhos. =)

Espero que ajude alguém no mínimo a ocupar o tempo que se passa na rede. Principalmente se estiver fazendo muito, mas muito calor.