quarta-feira, 20 de março de 2013

Varizes

Reprodução resumida de diálogo durante consulta, num desses dias:

-------------------------

- Bom dia, tudo bem?
- Tudo mais ou menos, doutor...
- O que houve?
- Tô com varizes na perna, está muito grande, tá horrível...queria que o senhor me encaminhasse a um médico de varizes.
- Ok, vamos dar uma olhada...
(...)
- E aí? Tá muito feio?
- Olha só, de fato tem algumas varizes...
- (interrompendo) Algumas? Tem um monte! E essa da panturrilha, tá horrível!
- Vê só, vamos conversar. A gente pode fazer algumas coisas: elevar a perna de vez em quando, usar umas meias compressivas se for ficar trabalhando muito tempo em pé, tomar um analgésico quando doer...mas você me pediu pra te encaminhar a um médico que possa cuidar disso. Então deixa eu te dizer uma coisa: essas varizes pequenininhas, por mais que tenha muitas delas, costumam responder muito pouco ao tratamento. Nesse caso não é cirurgia, é um tratamento que envolve algumas injeções nas pernas pra tentar eliminar as varizes. O problema é que elas costumam voltar e o tratamento não é fácil conseguir no SUS, então tu tem que pensar se quer isso mesmo. Diante disso, posso perguntar uma coisa?
- Pode sim.
- Tu tem 31 anos, certo?
- Certo.
- E imagino que as mulheres da tua família tenham varizes iguais às suas, certo?
- É...certo.
- Então deixa eu te dizer uma coisa. Estas varizes não são nada que você precise se incomodar tanto. Eu sei que esteticamente a gente se preocupa, mas pelo que você está me dizendo e pelo que eu vejo aqui este é o seu corpo, é a tua história, e é difícil lutar contra isso. Mas aí cabe uma outra questão.
- (silêncio)
- Você não devia se deixar influenciar por um padrão de beleza que está na televisão, nas revistas. Primeiro porque ele não é real: tu acha mesmo que a maioria das pessoas se parece com aquelas panicats? E segundo porque ele é mentiroso: pode aproximar a câmera ou tirar o photoshop que aquele corpo perfeitinho desaparece. Pessoas normais têm pneuzinho, celulite, estrias, varizes, sardas, culote, orelha de abano, pé torto.
- (Começa a chorar) É que me incomoda tanto! Eu fico com vergonha do meu marido! Ele é lindo, sabe? E tá na faculdade...aí eu fui lá um dia e vi um monte de menininhas, e só fico pensando que ele vai acabar me trocando por uma menininha daquelas. Eu nem saio mais com ele, não coloco mais um short em casa, ele vive me chamando pra ir pra praia que ele adora mas eu não quero ir.
- E como tá a relação de vocês? Ele te cobra em relação a isso?
- Não, de jeito nenhum! Olha...ele gosta muito de mim, eu tenho certeza! Ele faz tudo por mim, aquele homem! Ele vive dizendo pra eu não me preocupar, que isso é besteira!
- Então! Vai por mim, ouve teu marido! Ele sabe muito bem a diferença entre você e as menininhas da faculdade. Ele sabe muito bem porque está com você e não com elas.
- É...eu sei. Eu confio nele. A gente é muito feliz.
- Vocês têm filhos?
- Temos! Eu tenho dois do meu primeiro casamento e ele tem um do primeiro casamento dele.
- E como é a relação entre todos vocês?
- É ótima! A gente é feliz, de verdade.
- Pois é! Vai por mim, conversa com teu marido. Eu tenho certeza que ele prefere você com suas varizes tomando uma cervejinha com ele na praia do que em enfiada em casa! E sinceramente, olha ao teu redor. A maioria das mulheres tem varizes! Tu tá com vergonha de que? Aproveita a vida!
- (Sorri) Verdade. Acho que o senhor tá certo.
- Mas enfim, é só uma opinião. A gente vai fazer o que você achar melhor. Quer que eu tente fazer o encaminhamento? Fique à vontade!
- (Pausa. Sorri de novo) Não, não. Olhe, acho que hoje eu vou dormir como não durmo faz tempo. Eu tava muito preocupada, triste, mas gostei do que o senhor falou. Acho que é por aí. Vou pensar mais sobre isso.
- Então, faz aquelas coisinhas que eu falei e vamos vendo. Qualquer coisa tu volta aqui e me procura, ok?
- Ok. Muito obrigado, de verdade. Foi muito bom conversar. Sabe que eu tenho uns parentes, uns amigos médicos e não tinha coragem de conversar sobre isso? Morria de vergonha.
- Pois eu que agradeço pela confiança...você não teve coragem de conversar com os parentes mas se abriu comigo. Obrigado, viu? Espero ter retribuído.
- Ô! Vou chegar em casa e contar pro meu marido tudo o que o senhor falou! Ele vai ficar é feliz, porque ele ficava me dizendo mais ou menos a mesma coisa...

-----

E assim se ganha mais um dia de sorrisos no rosto que quem tá do lado não entende o porquê...eita profissãozinha apaixonante!

4 comentários:

Henrique Carvalho disse...

Muito massa! Isso ocorre muito! Muitas vezes não ouvimos nossos familiares, esposas, maridos e temos que ouvir um médico, psicólogo, profissional da área, ou mesmo outro amigo, para que concordemos com aquilo que os que estão mais perto sempre nos sugerem. Ótimo texto, Rodrigo. Parabéns!

Mônica disse...

Vc é demais, certos momentos da minha vida fui muito "essa paciente". Parabéns por tornar a vida das pessoas melhor com simples palavras.

Edileuza disse...

Rodrigo, que história linda!! .Fique certo que vc.não ajudou só a esta paciente,esta história será remédio para curar
muitos males.

FABIANA SALGADO MELO disse...

PARABÉNS!!! POR SEU PROFISSIONALISMO E PRINCIPALMENTE POR JEITO HUMANO DE SER. FABIANA K. S. MELO.