segunda-feira, 6 de maio de 2013

A vinda de médicos cubanos

Acabo de ler que o governo Dilma decidiu por trazer médicos cubanos para atender as áreas mais carentes do país. Segundo a matéria, deverão vir cerca de 6.000 médicos daquele país para suprir as necessidades brasileiras.

Sobre este assunto, alguns comentários, dúvidas, perguntas:

1) Os indicadores sociais de Cuba com frequência são usados para julgar a qualidade dos médicos do país. Mas será que uma coisa tem a ver com a outra? Entendo que os indicadores sociais de Cuba (especialmente a mortalidade infantil, o mais celebrado dos relacionados à saúde) dependem muito pouco do atendimento médico, mas dependem muito de políticas públicas. Vários indicadores não diretamente relacionados à saúde estão ligados à mortalidade infantil: alfabetização da mãe, saneamento, entre outros. Por outro lado, acesso a vacinas, acompanhamento de crianças de risco, assistência ao parto, assistência farmacêutica são coisa diretamente ligadas à mortalidade infantil, e não entram na discussão. Médicos não são deuses. Médicos resolvem problemas quando estão preparados E têm estrutura para isso. A imensa maioria dos municípios do Brasil não oferece as condições necessárias para fazer o mínimo na saúde. Até poucos dias estávamos sem vários exames usados no pré-natal de baixo risco aqui na rede municipal de Recife. Vamos discutir a minha capacidade como médico a partir das minhas condições de trabalho?

2) Segundo este site aqui (http://www.escolasmedicas.com.br/intern3.php) - aceito informações mais precisas se alguém tiver - Cuba tinha 66 mil médicos em 2006. De acordo com este outro site (http://www.infoescola.com/medicina/medicina-em-cuba/) eles formam pouco menos de 6 mil novos médicos cubanos (ou seja, descontando os de outras nacionalidades que se formam por lá) por ano. Ou seja, vou supor que eles tenham cerca de 100 mil médicos no país (o que me parece absurdo pra um país com 11 milhões de habitantes - imagina 100 mil médicos só em Pernambuco, que tem 9 milhões -  mas vá lá). Quer dizer que 6% da força de trabalho médica de Cuba será deslocada para o Brasil? Acho que meus números não fazem muito sentido...

3) Qual será o dispositivo legal que o governo irá criar para manter estes profissionais nas áreas carentes? Será que os cubanos, assim como os brasileiros, não cairão nas "tentações"que temos por aqui?

4) Que tal colocar médicos cubanos no Albert Einstein ou no Sírio-Libanês, onde os governantes desse país procuram atendimento quando precisam? Por que médicos cubanos só para as áreas carentes? Por que o governo insiste em uma política de medicina pobre (com idéias brilhantes como o Provab ou essa dos cubanos) para os rincões do país?

5) Já existe um programa de revalidação de diplomas obtidos em universidades estrangeiras, e tá cheio de estrangeiro (e brasileiros formados fora do país) querendo vir pra cá, ainda mais em tempos de crise econômica na Europa. O problema é que revalidar o diploma é MUITO caro e o processo é burocrático ao extremo. Que tal subsidiar os custos com tradução e outros, facilitar a burocracia (entendam, facilitar a burocracia, não a prova em si) e exigir em troca o trabalho nestes locais por um período? Por que só os cubanos servem às necessidades brasileiras? Tem algo estranho aí.

Enfim, eu topo fazer essa discussão. Pra mim é bola fora do governo. Aliás, de bola fora na área da saúde esse governo já superou os limites.

(fonte da notícia: http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2013/05/06/brasil-trara-6-mil-medicos-cubanos-para-atender-moradores-de-areas-carentes.htm)

4 comentários:

Bruno Pessoa disse...

Caro Rodrigo, fantástico seu texto. Acabo de ser direcionado para seu blog por uma postagem de Juan Gérvas. Sou médico, trabalho em Pesqueira (Terra indígena de Xukuru), chegamos aos rincões do país movidos pela utopia, mas deparamo-nos, não com a falta, mas com a INEXISTÊNCIA de estrutura... tentando refletir sobre essas experiências com um blog também veredasmedicas.blogspot.com.br

Anônimo disse...

Ainda sou acadêmica e desde já é claro e bastante óbvio que a minha formação não é para os rincões do país, não é pensando na população que eu tenho sido orientada a planejar minhas ações como futura profissional de saúde. Não sou direcionada a discutir os problemas que mais afligem a população, a maioria, e não a minoria hegemônica. Me revolta conceber que umas 5 cadeiras de nicho social sejam suficientes para que eu me depare com pacientes em situação de vulnerabilidade social e me acalente sanar apenas as dores "biológicas" deles, sem dar-lhes ao menos um linguajar acessível...bem,,, compartilho com vcs a angústia de quem quer ver interesse político no povo e não apenas em oportunismo político!

Rodrigo Lima disse...

Obrigado Bruno! Ser referenciado por meu amigo Gérvas é muita responsabilidade...
O que eu acho é que não há utopia que resista à realidade do interior do país. Até nas capitais tá difícil em meio a tanta politicagem...
Vou dar uma olhada no blog, obrigado!

Rodrigo Lima disse...

Nessa realidade o governo não quer mexer. Do jeito que fazem, deixarão as faculdades deficientes, o mercado solto, e a população cada vez mais vítima de atendimento de qualidade questionável.