terça-feira, 16 de setembro de 2014

Um projeto distorcido

Publicado no Jornal do Commercio de hoje, 16/09/2014


Opinião JC - 16/9/2014
Um projeto distorcido
Rodrigo Lima

O prefeito do Recife, Geraldo Julio, iniciou neste ano a implantação de unidades de saúde chamadas Upinhas, a partir de promessa de campanha eleitoral com objetivo claro: pegar carona na boa receptividade que tiveram as Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) implantadas por Eduardo Campos, durante sua passagem pela administração do governo do Estado em pouco mais de sete anos, e mostrar à população recifense alinhamento de projetos com seu padrinho político.
As Upinhas aqui instaladas consistem em serviços de atendimento ambulatorial Unidades de Saúde da Família (USF) com estrutura diferenciada que os habilita a atender pequenas urgências, visando dar continuidade ao projeto estadual: se as UPAs se propunham a diminuir a demanda por atendimento de urgência nos grandes hospitais do estado, as Upinhas traziam a promessa de diminuir a demanda que se direcionou às UPAs.
Passados seis meses de inauguração da primeira Upinha, localizada no Morro da Conceição, será que a promessa está sendo cumprida?
Nas Upinhas acontece hoje a disputa mais importante para a saúde da população recifense nos próximos anos: Estratégia Saúde da Família ou Pronto- atendimento? Qual a melhor opção? Enquanto as três equipes de saúde da família, compostas por médicos, enfermeiros, odontólogos, técnicos de enfermagem e saúde bucal e agentes comunitários de saúde, se dedicam a oferecer atendimento personalizado, focado nas pessoas, considerando as necessidades da população, a gestão municipal trabalha para induzir estes profissionais a organizarem suas agendas priorizando queixas agudas e urgentes.
Ora, quais são as doenças que mais ameaçam de doença, incapacidade e morte a população brasileira? É sabido que as mais importantes são as condições crônicas como as doenças cardiovasculares e o câncer.
Quem estuda saúde pública sabe muito bem que o que superlota as urgências é exatamente a falta de cuidados preventivos e assistenciais em tempo hábil, antes que estas doenças se instalem e produzam complicações.
Precisamos evitar ao máximo a necessidade do pronto-atendimento, e isso não se faz com novos serviços com a mesma natureza, mas com serviços que equilibrem ações preventivas e curativas, cuidando das pessoas ao longo do tempo e de forma integral, o que acontece nas boas USF.
Em oposição a estas evidências, a gestão municipal insiste na nomenclatura Upinha para as USF do município, confundindo os usuários e descaracterizando o serviço mais bem avaliado entre todos os oferecidos pelo SUS.
Afinal, o que é "urgente" para a população recifense? Precisamos que nossos gestores municipais respondam rapidamente a esta pergunta, antes que as Upinhas distorçam ainda mais um sistema de saúde que poderia fazer muito mais pela saúde das pessoas se não fosse vítima de tantas invencionices desenvolvidas pelos gestores da vez.

Rodrigo Lima é médico e presidente da Associação Pernambucana de Medicina de Família e Comunidade (APEMFC) 

2 comentários:

Marcio disse...

Muito Bom texto. Acredito que devemos sempre olhar para o futuro e nao somente no agora... Basear uma saude no agora e planejar o adoecer de amanha... abcs

Marta Melo disse...

Super aplausos!!! Arrasou!